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A década de Gabriel Medina

O ano de 2011 foi especial para a elite do surfe mundial. Kelly Slater se sagrou 11 vezes campeão – o último título da lenda do esporte. Nova York sediou a etapa com a maior premiação da história do tour: US$ 1 milhão (mais de R$ 5 milhões). Mas nada disso foi tão marcante quanto a entrada do jovem de 17 anos que veio de Maresias para sacudir um circuito dominado por americanos e australianos.

Gabriel Medina estreou no meio da temporada de 2011, venceu duas de cinco etapas e ganhou o apelido de “The Freak Kid” (A criança aberração). Em quase uma década no tour, ele já conquistou 14 campeonatos, fez 24 finais, conseguiu 16 notas 10, completou aéreos inéditos, saiu de tubos impossíveis e deu para o Brasil o primeiro título mundial em 38 anos de surfe profissional. E depois ainda conquistou o segundo.

Mas também tiveram polêmicas, derrotas marcantes, haters e outras coisas ruins ao longo dos anos. Por isso, na véspera do início da 10ª temporada de Medina, com a disputa da etapa de abertura no Pipe Masters (Havaí), a partir desta terça-feira, selecionamos os dez momentos mais marcantes de sua trajetória até aqui. Os melhores e os piores. Confira a seguir!

2011 – ESTREIA E TÍTULO NA FRANÇA

A vitória na França foi um dos momentos mais marcantes de Medina na carreira. Com apenas 17 anos, Gabriel tinha acabado de estrear na elite mundial no segundo semestre de 2011. A Associação dos Surfistas Profissinais (ASP) criou um corte no meio da temporada, levando em consideração o recém-criado ranking unificado que contava com os pontos da divisão de acesso (WQS) e da elite (WCT).

E logo em sua segunda etapa no Tour, Gabriel derrotou o australiano Julian Wilson na final, com uma virada na última onda que veio com dois aéreos no último minuto na bateria, tornando-se o surfista mais novo a vencer uma etapa. Na campanha do título, Medina derrotou pela primeira vez a lenda Kelly Slater, em uma bateria emocionante nas quartas de final. A partir daí, a imprensa internacional começou a chamar o jovem de Maresias de “The Freak Kid” (A criança aberração).

Gabriel ainda ganhou a etapa de São Francisco naquele ano com uma vitória sobre o australiano Joel Parkinson na final. No fim, ele venceu suas das cinco provas que disputou na elite em 2011.

Você sabe que tem algo especial quando vê alguém tão bom e tão jovem. Dava para dizer que não era um talento temporário. Alguns jovens são bons, mas não evoluem. Com o Gabriel era claro que ele ficaria ainda melhor – disse Kelly Slater.

Medina ganha um beijo da mãe, Simone, no pódio em Hossegor – WSL / Kirstin Scholtz

2012 – DERROTA E CHORO NA AREIA EM PORTUGA

Abraçado com o padrasto e treinador, Charles, Medina aguarda a nota de Julian Wilson na final em Portugal 2012 – WSL / Kelly Cestari

Embalado por uma estreia impressionante em 2011, Gabriel teve um início de temporada abaixo das expectativas em 2012. Mesmo assim, chegou à final em Fiji contra Kelly Slater e voltou a ter a chance de conquistar o primeiro título no ano, em Peniche, Portugal.

Depois de ser o destaque ao longo da competição, tirando inclusive uma nota 10 na primeira rodada, Gabriel mais uma vez encontrou Julian Wilson na final. E parecia que o brasileiro ia levar a melhor sobre o rival novamente. Medina liderava a bateria até o minuto final, quando Julian pegou a última onda do duelo.

Abraçado com o padrasto e técnico Charles Saldanha na areia, o brasileiro ouviu os locutores anunciarem a virada do australiano, e deixou o local indignado com a nota. Assim que entregaram o troféu de campeão para o rival, Gabriel abandonou o palanque, enquanto Julian levantava sua taça.

2014 – VITÓRIA NA GOLD COAST

Medina incrédulo com a virada na final contra Joel Parkinson – WSL / Kirstin Scholtz

A vitória na Gold Coast foi uma das mais surpreendentes na carreira de Medina. Primeiro porque ele vinha de uma pré-temporada prejudicada por uma fratura no pé durante as férias no Havaí. Segundo porque era raro um goofy footer ( surfista que usa o pé direito na frente) vencer a etapa de Snapper Rocks. Em 12 anos do campeonato, Michael Lowe era o único goofy campeão nas direitas de Snapper.

Mesmo sem estar 100% da lesão no pé, Gabriel foi ganhando confiança a cada bateria que passava na Gold. Até que chegou nas quartas de final contra o dono da casa, bicampeão em Snapper e tri mundial Mick Fanning. O brasileiro venceu com uma virada na última onda, com a nota 9,40, que foi uma das melhores surfadas por ele no campeonato.

Nas semis, outro australiano campeão em Snapper pela frente: Taj Burrow. A vitória também aconteceu com uma virada na última onda e foi ainda mais emocionante, porque a nota só veio quando Gabriel já estava no palanque. Medina tirou o suficiente para vencer por apenas três centésimos.

Já a decisão foi contra outro ídolo local, bicampeão em Snapper e campeão mundial Joel Parkinson. A festa australiana começou a ser armada no palanque depois que Joel colocou Medina em combinação na metade da bateria.

Quando se está diante de alguém como ele, você precisa estudar não apenas o jeito que ele surfa, mas também como ele é na água. Uma das coisas que mais gosto nele, e que aprendo com ele, é que mesmo quando está perdendo ele ainda acredita na vitória. Isso é muito difícil, mas ele sempre acha um jeito de vencer – disse Joel Parkinson.

Nas duas últimas ondas da bateria, Gabriel achou um jeito de virar e vencer por apenas seis centésimos. Aos 20 anos de idade, Medina se tornou o primeiro brasileiro campeão na Gold Coast e abriu a caminhada para a conquista do então inédito título mundial para o Brasil.

2014 – VITÓRIA SOBRE KELLY NAS BOMBAS DE TEAHUPOO

Medina desbanca Kelly Slater na final e é campeão no Taiti – WSL / Kirstin

Embalado pelas vitórias na Gold Coast e em Fiji, Medina veio para Teahupoo, no Taiti, em um evento que seria o seu teste de fogo na busca pelo primeiro título mundial. E tudo ficou ainda mais dramático com a previsão de ondas enormes para o período da janela.

A famosa “praia dos crânios quebrados” foi fazendo jus ao apelido amedrontador. Enquanto alguns surfistas pegavam o “tubo da vida”, outros tiveram que sair do mar imobilizados depois de serem esmagados pelos ondões. Apesar da pouca experiência em ondas desse porte, Gabriel foi se superando a cada bateria e até mostrando uma rara intimidade com os tubos.

Depois de passar por Bede Durbidge com sobras na semi, pegou ninguém menos do que Kelly Slater na final. E o Maior vencedor da história em Teahupoo, com cinco títulos, parecia estar fora de sintonia com as ondas, cometendo muitos erros, enquanto Medina desfilava nos tubos com maestria. Slater se recuperou, buscou a virada até a última onda, mas foi o brasileiro quem levou o título por apenas três centésimos.

 Eu aprendi muito assistindo e competindo contra o Gabriel. Ele não te dá chances e é preparado para vencer. Nas baterias, ele usa tudo que é possível para vencer. Como competidor, ele tenta de tudo, tudo que pode, para colocar pressão em você, para entrar na sua cabeça e no seu caminho – disse Kelly.

2014 – GABRIEL SUPERA KELLY E MICK PARA SER O 1º BRASILEIRO CAMPEÃO

Medina se tornou o primeira brasileiro campeão mundial de surfe em 2014 – WSL / Kirstin

Depois de liderar o circuito de ponta a ponta, Medina foi decidir o título mundial no Pipe Master, no Havaí. Com cada bateria com gosto de final, ele foi fazendo o seu papel avançando na competição. E cada bateria que ele passava, os outros postulantes ainda com chances de título iam sainda da briga.

Quando Gabriel passou pela 3ª fase, Kelly Slater deu adeus às chances de título. Com apenas Mick Fanning na briga, Medina passou mais duas fases e se classificou para as quartas, enquando o australiano caiu para a repescagem contra o também brasileiro Alejo Muniz.

Com Gabriel já na água aguardando o início de sua bateria nas quartas, Alejo deu um presente para o amigo e derrotou Mick Fanning. Enquanto Medina se emocionava no mar abraçado com Alejo e com o seu adversário nas quartas, Filipe Toledo, as areais de Pipeline entraram em erupção com a conquista do primeiro título mundial da história do Brasil.

Foi onde tudo mudou na minha vida. Não só na minha, como na de alguns brasileiros também. São poucas pessoas que sentem isso: chegar no impossível. Foi quando eu cheguei no que eu achava ser impossível – explicou Gabriel.

2015 – BICAMPEONATO NA FRANÇA PARA O AVÔ

O ano de 2015 foi complicado para Gabriel. Depois de uma campanha muito abaixo da expectativa no primeiro semestre, ainda sofreu a perda de uma das pessoas mais próximas de sua família: o avô Jaime.

Medina chegou na França ainda longe dos líderes na briga pelo bicampeonato mundial. Mas as ondas de Hossegor são especiais para o brasileiro, e ele voltou a mostrar a grande forma de 2014. Na quarta fase, fez o seu maior somatório da carreira no tour: 19,83 pontos (de 20 possíveis), com direito a uma nota 10 em um aéreo full rotation de backside. Depois de passar por John John nas quartas, Gabriel derrotou Mineiro nas semis com mais uma nota 10, dessa vez em um tubão.

Na final, o brasileiro colocou o australiano Bede Durbidge em combinação para conquistar o bi na França. Na comemoração, Medina se emocionou e dedicou o título ao avô Jaime, que faleceu naquele ano e era muito próximo do neto.

Gabriel e seu Jaime na casa do campeão mundial em Maresias – Arquivo pessoal

2016 – MEDINA ACERTA O PRIMEIRO MORTAL DA HISTÓRIA DO TOUR E TIRA 10 NO RIO

Medina faz história ao acertar backflip, tira nota 10

Desde que surgiu no circuito mundial, Medina tinha o sonho de acertar um backflip durante uma etapa. O primeiro mortal para trás registrado pelo brasileiro aconteceu em 2012 durante os treinos no Havaí. Depois de algumas tentativas nos primeiros anos, quase acertou o primeiro na final do Pipe Masters de 2015 contra Adriano de Souza Mineirinho.

Até que, na etapa do Rio de 2016, Medina achou o momento certo para arriscar mais uma vez. Foi na bateria contra o compatriota Alex Ribeiro, válida pelas repescagens. Gabriel já liderava o confronto com certa tranquilidade, até que veio a rampa perfeita em uma esquerda do Postinho, na Barra, e ele foi com tudo: um mortal completo para trás, seguido de mais uma nota 10 para o surfista de Maresias.

2016 – A ELIMINAÇÃO POLÊMICA DE TRESTLES

Sem sombra de dúvidas, a bateria entre Gabriel Medina e o americano Patrick Gudauskas, em 2016, na etapa de Trestles, entrou para a história do surfe mundial como uma das mais polêmicas em relação ao julgamento. Depois de ver o seu rival na briga pelo título da temporada John John Florence ser eliminado na bateria anterior, Gabriel entrou na água com a chance de ultrapassá-lo se continuasse avançando na competição.

O brasileiro estava perdendo o seu confronto contra Gudauskas, precisava de um 8,51 para virar e veio a melhor onda da bateria para ele. Gabriel surfou a onda no limite, acertou uma sequência de manobras de backside até o fim dela e comemorou muito no fim. No palanque e nas areias, a virada era dada como certa. Mas não foi essa a opinião dos juízes.

Gabriel tirou 8,3 e ficou incrédulo com o resultado. De forma irônica, ele se virou para o palanque de dentro do mar e começou a aplaudir olhando para os juízes. A comoção nas redes sociais foi proporcional à indignação do brasileiro, e a polêmica não parou de repercutir ao longo daquele ano.

2017 – VITÓRIAS NA FRANÇA E EM PORTUGAL E VOLTA À BRIGA PELO TÍTULO

Medina conquista o título em Supertubos 2017 – WSL / Laurent Masurel

Longe dos líderes na disputa pelo título de 2017, Gabriel só tinha uma opção para ainda ter chances de lutar pelo bi na última prova em Pipeline: vencer as duas etapas da perna europeia. E ele foi determinando em busca desse feito.

Na França, Medina primeiro eliminou da disputa o seu grande rival John John Florence na semifinal com um aéreo de backside “sushi roll”. Na decisão, atropelou o havaiano Sebastian Zietz para faturar o tricampeonato em Hossegor.

Medina saiu da França embalado para a penúltima etapa do ano em Supertubos. E Portugal foi uma reprise de Hossegor. Foi ganhando confiança ao longo da competição, até chegar à grande decisão contra o seu eterno rival Julian Wilson. Em mais uma bateria emocionante, o brasileiro conseguiu a virada nas últimas duas ondas e ressurgiu das cinzas com as duas vitórias seguidas na Europa.

2018 – QUARTAS DE FINAL EM PIPE E OS 3 MINUTOS MÁGICOS

Medina e os três minutos históricos nas quartas de final em Pipe 2018 – WSL / Ed Sloane

A ano de 2018 foi histórico para Medina. Foram três títulos – Teahupoo, Surf Ranch e Pipe Masters – conquistados, que culminaram com o bicampeonato mundial após três anos batendo na trave. Mas o momento que mais marcou aquela campanha foi a bateria contra o americano Conner Coffin, pelas quartas de final, em Pipeline.

Medina estava disputando o título mundial bateria a bateria com o australiano Julian Wilson, que precisava de um tropeço de Gabriel antes da final para ter chances de ser campeão mundial.

Aí vieram as quartas de final contra Conner Coffian, que já abriu a disputa dando um susto em Gabriel. O americano pegou de cara as três melhores ondas da bateria até então e deixou o brasileiro em combinação, a 15 minutos do fim da bateria. Foi então que aconteceu um dos momentos de maior brilhantismo da carreira de Medina. Foram os chamado “3 minutos mágicos”.

Sem nenhuma onda completada e precisando de 14,26 pontos para virar, Medina veio em um tubo para Pipeline e ainda finalizou com um aéreo. Gabriel voltou remando rápido para o fundo, enquanto ouvia que tirou a nota 9,43, mas ele ainda estava atrás.

Ao chegar no fundo e sem a prioridade, Gabriel viu que Conner estava atrasado para entrar em uma onda que vinha para Backdoor. Medina não pensou duas vezes: botou para baixo na “craca”, sumiu dentro do tubo e só saiu na baforada com os dois braços erguidos para o alto. Uma nota 10 unânime, que colocou Conner em combinação e o garantiu nas semis, onde ele iria depois se sagrar bicampeão mundial.

2019 – INTERFERÊNCIA EM PORTUGAL E O ADEUS AO TÍTULO

Medina comete interferência em Caio durante competição em Portugal – WSL / Laurent Masurel

Gabriel vinha firme em busca de mais um mundial em 2019. O título em uma final épica contra Ítalo Ferreira em Jeffreys Bay e mais uma vitória incontestável no Surf Ranch deixaram Medina isolado na liderança do ranking e com chances matemáticas de se sagrar tricampeão do mundo na penúltima etapa do ano, em Portugal.

Elel vinha bem na competição e estava liderando o confronto da quarta fase contra o compatriota Caio Ibelli com certa tranquilidade. Até que a cinco minutos do fim, ele veio junto com Caio na mesma onda e cometeu uma interferência. Gabriel não tinha reparado que no painel do palanque os juízes tinham dado a prioridade para o rival após os dois surfarem a mesma onda anterior, mas em partes diferentes do pico.

Medina foi punido com a perda da segunda melhor nota e mesmo assim ainda quase ganhou o confronto. Depois da bateria, Gabriel pediu para a WSL rever a questão da prioridade dada ao Caio, mas a entidade não voltou atrás e manteve o resultado.

Com a eliminação precoce, Gabriel deixou aberto o caminho para Italo Ferreira ultrapassá-lo no ranking com o título em Portugal.

Confira a seguir a reportagem especial do Esporte Espetacular sobre a década gloriosa de Medina

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